Moana live-action abre com US$ 43 milhões e coloca a Disney num buraco de US$ 100 milhões

Moana (Divulgação/Disney)
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A Disney tinha um plano simples com Moana em live-action: pegar uma animação querida de 2016, colocar o Dwayne Johnson de volta como Maui e repetir a mágica financeira de O Rei Leão. Não foi o que aconteceu. O filme abriu com US$ 43 milhões nos Estados Unidos, algo em torno de R$ 218 milhões pela cotação de R$ 5,08 desta quarta.

O problema não é o número sozinho, é o número ao lado do orçamento. Moana custou US$ 250 milhões só de produção, sem contar marketing, o que dá cerca de R$ 1,27 bilhão. Com US$ 95 milhões no mundo inteiro no primeiro fim de semana, a projeção que circula em Hollywood é de um prejuízo perto de US$ 100 milhões.

E o mais impressionante é o contraste com o histórico recente da própria marca. A animação Moana 2 passou de US$ 1 bilhão em bilheteria mundial em 2024. Menos de dois anos depois, a versão em carne e osso da mesma história abriu com menos de cinco por cento disso.

A comparação que dói

A animação original abriu com US$ 56,6 milhões em 2016, cerca de R$ 287 milhões pela cotação de hoje. Ou seja, o live-action de 2026, com dez anos de nostalgia acumulada e um orçamento muito maior, vendeu menos ingresso na estreia do que o desenho vendeu uma década atrás.

E isso sem corrigir pela inflação, o que tornaria a conta consideravelmente pior. Se você ajustar o valor de 2016 para o poder de compra de 2026, a diferença real entre as duas aberturas fica na casa dos trinta por cento.

Isso quebra a lógica que sustentou toda a estratégia de remakes da Disney. A ideia era que o público pagaria de novo pela mesma história em carne e osso, e que a nostalgia funcionaria como combustível gratuito de marketing. Funcionou com A Bela e a Fera em 2017 e com O Rei Leão em 2019. Parou de funcionar em algum ponto entre lá e cá.

Crítica detonou, público aprovou

A recepção veio rachada de um jeito curioso e importante de entender. A crítica especializada foi dura, chamando o filme de exercício corporativo sem alma e apontando que ele copia o original quadro a quadro, sem acrescentar leitura nova.

Já o público deu nota A- no CinemaScore, que é uma pesquisa feita com espectadores na saída da sessão e serve como termômetro de boca a boca. Nota A- é boa. Não é excelente, mas está longe de ser reprovação.

Essa divergência tem um significado prático que costuma passar batido. O filme não morreu de boca a boca ruim, ele simplesmente não convenceu gente suficiente a comprar o ingresso na primeira semana. É um problema de desejo, não de qualidade percebida por quem foi. E problema de desejo é muito mais difícil de resolver, porque não adianta o filme ser bom se ninguém sente vontade de sair de casa.

O que aconteceu com o público de remake

Para entender o tamanho do tombo, vale olhar o que a Disney fez em 2025, que foi um ano de extremos absolutos para essa estratégia.

De um lado, Lilo & Stitch abriu com US$ 146 milhões no feriado de Memorial Day e passou de US$ 994 milhões mundiais, tornando-se o primeiro filme de Hollywood a cruzar a marca de US$ 1 bilhão naquele ano.

Do outro, Branca de Neve terminou a carreira com US$ 205,6 milhões no mundo inteiro, em meio a uma controvérsia pública que durou meses. Dois remakes da mesma empresa, no mesmo ano, com resultados separados por quase oitocentos milhões de dólares.

A lição que a Disney não tirou

A diferença entre os dois casos não é aleatória e ensina bastante. Lilo & Stitch tinha um elemento que nenhum concorrente oferecia: uma criatura digital carismática que só existe naquele filme. Ninguém vê o Stitch em outro lugar.

Branca de Neve, por outro lado, é uma história que o público conhece de cor, sem nenhum elemento visual exclusivo, e que virou pauta de discussão política antes de virar pauta de cinema.

Moana está mais perto do segundo caso do que do primeiro. A animação de 2016 e a sequência de 2024 ainda estão frescas no catálogo do Disney+, disponíveis a qualquer momento. Refazer uma história que o público pode assistir de graça em casa, na versão que ele já ama, é uma proposta difícil de vender.

O terceiro tropeço seguido

O detalhe que mais preocupa o estúdio é a sequência de resultados. Moana é a terceira decepção consecutiva da Disney nos cinemas, depois de Supergirl e Minions e Monstros. Três em sequência deixa de ser azar e vira sintoma.

Vale lembrar que Minions e Monstros foi antecipado em um ano justamente para ocupar a data que era de Shrek 5. Remanejar calendário para tapar buraco raramente termina bem, porque compromete o tempo de produção e de campanha ao mesmo tempo.

Quando três filmes grandes seguidos ficam abaixo do esperado, o problema deixa de ser de cada projeto e passa a ser de leitura de mercado. É o momento em que conselho de administração começa a fazer pergunta desconfortável em reunião.

Quem está por trás do filme

A direção é de Thomas Kail. Pra quem não conhece o nome, ele é o diretor de Hamilton na Broadway, espetáculo que ganhou onze prêmios Tony, e do especial ao vivo Grease Live. Ou seja, é um cara de musical e de transmissão ao vivo, não de blockbuster de aventura com efeito visual pesado.

Não é impossível fazer essa transição, e teatro tem muito a ensinar sobre encenação. Mas dirigir aventura marítima com criatura digital e coreografia de ação é outro ofício, e a crítica apontou exatamente a falta de fluidez visual como um dos problemas.

O roteiro é de Jared Bush e Dana Ledoux Miller. Bush é uma escolha lógica: ele codirigiu Encanto e escreveu a animação original de Moana, então conhece o material por dentro.

O elenco e a peruca que virou assunto

A protagonista é Catherine Laga’aia, em sua estreia no cinema. Escolher uma atriz estreante para carregar um filme de US$ 250 milhões é uma aposta corajosa, e a maior parte da crítica poupou o desempenho dela, concentrando as críticas na direção e no roteiro.

Dwayne Johnson repete o Maui das animações, agora em carne e osso, e a caracterização dele virou tema de discussão pública antes mesmo da estreia, especialmente a peruca usada no personagem.

Em conversa com a Variety, o diretor Thomas Kail comentou a repercussão negativa em torno da caracterização e das resenhas, e disse querer o maior número possível de pessoas assistindo ao filme.

Johnson também é produtor

Um detalhe que muda a leitura do resultado: Dwayne Johnson não é apenas o ator do Maui, ele assina a produção do filme ao lado de Hiram Garcia, Dany Garcia e Beau Flynn, todos da Seven Bucks Productions.

Isso significa que a responsabilidade criativa e financeira dele vai muito além da atuação. Johnson vem de uma sequência difícil de resultados no cinema, e este era um projeto pensado justamente como retorno ao terreno seguro.

Pra quem não acompanha, a Seven Bucks é uma das produtoras mais ativas de Hollywood e tem no currículo a franquia Jumanji, que rendeu mais de US$ 1,7 bilhão somando os dois filmes. O grupo sabe fazer entretenimento familiar de escala. Desta vez não pegou.

O que isso significa para os próximos remakes

A Disney tem mais de uma dezena de remakes em live-action em diferentes estágios de desenvolvimento. O de Enrolados chegou a ser pausado depois do fracasso de Branca de Neve e foi retomado após o sucesso de Lilo & Stitch, com filmagens previstas para começar em agosto de 2026.

Ou seja, o estúdio já demonstrou que liga e desliga esses projetos conforme o resultado do anterior. Depois de Moana, a probabilidade de pelo menos um deles voltar para a gaveta é alta.

A pergunta de fundo é se a Disney vai concluir que o problema é o modelo ou que o problema foi este filme específico. Historicamente, grandes estúdios demoram para aceitar a primeira hipótese.

Por que crítica e público discordaram tanto

Uma diferença dessa magnitude entre resenha profissional e nota de público não é comum, e vale entender de onde ela vem. Crítico assiste a dezenas de filmes por mês e avalia originalidade, direção e propósito. Espectador de sessão de domingo avalia se passou duas horas bem.

Um remake fiel quadro a quadro é, por definição, o pior cenário possível para o primeiro grupo e um cenário confortável para o segundo. O crítico vê ausência de ideia, o público vê uma história que já sabe que funciona.

O problema é que nenhum dos dois grupos gera bilheteria de US$ 250 milhões sozinho. Quem gera é o público casual que ainda não decidiu, e esse foi justamente quem não apareceu.

O impacto no Brasil

Filme de animação da Disney tem um desempenho historicamente forte no mercado brasileiro, muito acima da média proporcional de outros países. A dublagem em português e o hábito familiar de cinema em feriado sustentam esse padrão há décadas.

É por isso que o resultado internacional de US$ 52 milhões chama atenção. Quando um título com esse perfil não performa nos mercados que costumam ser generosos com a marca, o diagnóstico fica mais claro: não foi um problema de um país específico, foi geral.

Para o exibidor brasileiro, isso significa que a sessão vai sair de cartaz mais rápido que o normal. Quem quiser ver na tela grande tem poucas semanas.

Onde o filme acerta

Vale registrar o que funciona, porque tombo de bilheteria não significa filme ruim. A trilha original de 2016 continua sendo uma das melhores da Disney moderna, e as canções sobrevivem à transposição para live-action praticamente intactas.

A estreia de Catherine Laga’aia também merece registro. Carregar um filme desse porte sem currículo prévio é uma tarefa que já derrubou atores experientes, e a recepção do público sugere que ela segurou a personagem.

O que faltou não foi execução, foi motivo. Ninguém conseguiu responder de forma convincente por que essa versão precisava existir, e o público percebeu isso antes de comprar o ingresso.

Ficha técnica

  • Direção: Thomas Kail
  • Roteiro: Jared Bush e Dana Ledoux Miller
  • Elenco: Catherine Laga’aia e Dwayne Johnson
  • Produção: Dwayne Johnson, Hiram Garcia, Dany Garcia e Beau Flynn
  • Estúdio: Walt Disney Pictures
  • Orçamento de produção: US$ 250 milhões, cerca de R$ 1,27 bilhão
  • Abertura nos Estados Unidos: US$ 43 milhões
  • Abertura mundial: US$ 95 milhões
  • Nota do público no CinemaScore: A-
  • Estreia: 10 de julho de 2026

Espera cair no streaming

Conselho de bolso: com nota A- do público e crítica arrasando, este é o caso clássico de filme que rende mais em casa. Ele vai chegar ao Disney+ e a experiência não perde quase nada, porque o apelo aqui é a canção e o carisma do elenco, não a escala visual.

Se a família quer ver com criança, esperar dois ou três meses economiza o valor de quatro ingressos, que hoje sai facilmente acima de duzentos reais numa sessão de fim de semana em capital. Filme com bilheteria fraca costuma chegar ao streaming mais rápido, porque não há motivo comercial para segurar.

O que vem por aí

A aposta pessoal: a Disney vai segurar pelo menos um dos remakes que ainda estão em desenvolvimento depois desse resultado, e a próxima aposta grande do estúdio vai ser em propriedade que não tenha uma animação recente e disponível competindo com ela.

Tem também uma lição simples que a bilheteria vem repetindo faz tempo. Quando o público já tem a versão que ele ama a um clique de distância, ele precisa de um motivo muito bom para pagar por outra. Nostalgia não é motivo suficiente sozinha.

Você viu o live-action de Moana? Valeu o ingresso, ou você está no time que prefere rever a animação? Comenta aí embaixo.

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