Depois de quase quatro anos de anúncios, adiamentos e mudança de plano, Avatar Aang: O Último Mestre do Ar estreia hoje, 25 de julho de 2026, no Paramount+. São 99 minutos de animação dirigida por Lauren Montgomery, com Eric Nam na voz do Aang e Dave Bautista como um mestre do ar ancestral.
O filme é continuação direta da série original da Nickelodeon, que estreou em 2005, e chega dois dias depois de a franquia ocupar o Hall H do San Diego Comic-Con pela primeira vez na história. No mesmo painel saiu a data da nova série, Avatar: Seven Havens. Vamos por partes, porque tem bastante coisa acontecendo nesse universo de uma vez só.
Era pra ser no cinema
A história de bastidor desse lançamento é quase mais interessante que o filme.
O projeto foi anunciado como longa de cinema, para ser distribuído pela Paramount Pictures em salas do mundo inteiro. Passou por vários adiamentos ao longo dos anos e chegou a ter data travada em 9 de outubro de 2026. Em dezembro de 2025, o estúdio mudou de ideia e transferiu tudo para lançamento direto no streaming.
Sobrou uma exibição simbólica em cinema: o filme está em cartaz em duas salas, o AMC Burbank Town Center 6, em Los Angeles, e o AMC Empire 25, em Manhattan, entre 24 e 30 de julho, com três sessões por dia. É o suficiente para qualificar o filme em premiações que exigem exibição comercial e para dizer que houve estreia em cinema. Não é o suficiente para chamar de lançamento.
Vale entender o contexto empresarial. A Paramount passou por uma fusão com a Skydance concluída em 2025, e reorganizações desse tamanho costumam vir acompanhadas de revisão de calendário e corte de risco. Um longa de animação sem franquia de brinquedo por trás, competindo com concorrentes de animação bem estabelecidos, é exatamente o tipo de aposta que uma diretoria nova prefere colocar no serviço de assinatura, onde ele vira argumento de retenção em vez de risco de bilheteria.
É uma decisão defensável do ponto de vista da planilha e frustrante do ponto de vista de quem faz e de quem assiste. E fica ainda mais frustrante quando você lê as primeiras críticas.
A crítica diz que merecia tela grande
As primeiras análises são majoritariamente positivas, e o elogio mais repetido é justamente sobre a animação. A palavra que aparece em quase todo texto é que o filme parece feito para o cinema, e mais de um crítico escreveu literalmente que ele merecia o lançamento em salas que perdeu.
Lauren Montgomery é apontada como a principal responsável por isso. Pra quem não conhece o nome, ela construiu carreira na animação da DC, dirigindo longas diretos em vídeo do Superman e da Mulher-Maravilha ao longo dos anos 2000 e 2010. É gente que sabe fazer cena de ação animada com clareza e peso, e que também sabe trabalhar dentro de um estilo já estabelecido sem apagá-lo.
Nem tudo é elogio. Existe uma linha crítica que descreve o filme como um reencontro bonito e leve demais, mais próximo de um especial de reunião do que de uma história que justifique voltar a esse mundo. É uma crítica justa de se levantar sobre qualquer continuação de obra amada, e o leitor deve decidir sozinho se isso é problema ou se é exatamente o que ele quer.
A história, sem estragar nada
O ponto de partida: Aang descobre a existência de um poder antigo capaz de salvar a cultura dos Nômades do Ar da extinção, e sai numa jornada global para encontrá-lo antes que ele caia nas mãos erradas.
Isso já é bonito por si só. O buraco emocional da série original sempre foi que o Aang é o último de um povo inteiro exterminado, e a franquia nunca deixou de tratar isso como ferida aberta. Construir um filme em cima da possibilidade de reverter, ou ao menos preservar, aquela perda é ir direto ao osso do personagem em vez de inventar uma ameaça nova qualquer.
Acompanham a jornada Katara, Sokka, Toph e Zuko, contra um grupo antagonista chamado The Denied. O personagem de Dave Bautista, o mestre do ar ancestral Tagah, funciona como mentor que abre para o Aang possibilidades da dobra de ar que ele não conhecia, e as resenhas deixam claro que ele não é exatamente o que aparenta ser.
O elenco de voz é uma escolha curiosa
O time de dublagem original chama atenção por não repetir as vozes da série de 2005, o que era esperado, já que os atores originais eram crianças na época.
Eric Nam faz o Aang. Pra quem não conhece, ele é um cantor americano de origem coreana que fez carreira no K-pop e depois migrou para apresentação e atuação. É uma escolha inusitada para um papel principal de animação, e as críticas o mencionam sem reclamação.
Jessica Matten, atriz indígena canadense conhecida por Dark Winds, faz a Katara. Román Zaragoza, o Sasappis de Ghosts, faz o Sokka. E Dionne Quan volta como Toph, papel que ela já fez em produções anteriores da franquia.
Os dois nomes de peso são Dave Bautista, o Drax dos Guardiões da Galáxia, e Steven Yeun, que faz o Zuko. Pra quem não conhece, Yeun é o Glenn de The Walking Dead e foi indicado ao Oscar por Minari, além de ter estrelado Rancor, da Netflix. Entregar o Zuko, provavelmente o personagem mais amado da franquia inteira, para um ator desse calibre é sinal de que o estúdio sabia o tamanho da responsabilidade.
E a nova série ganhou data
No mesmo painel do Comic-Con, apresentado por Janet Varney, a voz da Korra, saiu a novidade que muita gente estava esperando: Avatar: Seven Havens estreia globalmente no Paramount+ em 9 de outubro, uma sexta-feira.
A série avança bastante na linha do tempo. A protagonista é Pavi, uma dobradora de terra que é a sucessora da Korra como Avatar, e a história acompanha ela e a irmã gêmea, Nisha, num mundo com personagens, criaturas e paisagens novas.
O formato é generoso: os livros 1 e 2 somam 26 episódios, divididos em duas levas de 13 episódios de meia hora cada. Ou seja, a Paramount encomendou duas temporadas de uma vez, o que é um voto de confiança considerável e evita o cancelamento precoce que acaba com tanta animação boa.
E teve um detalhe simbólico no evento: foi a primeira vez que a franquia Avatar ocupou o Hall H, o maior espaço do Comic-Con. Bryan Konietzko e Mike DiMartino, criadores da série original, estavam lá.
Por que a série de 2005 virou clássico
Pra quem chegou depois e não entende por que existe tanto barulho em volta de um desenho da Nickelodeon, vale explicar o tamanho do que aquela série fez.
Avatar: A Lenda de Aang foi ao ar entre 2005 e 2008, com 61 episódios divididos em três livros: Água, Terra e Fogo. Era, no papel, um desenho infantil de tarde. Na prática, contava uma história sobre um genocídio cultural, ocupação militar, refugiados e o custo psicológico da guerra em crianças, num tom que nenhuma emissora infantil da época se atrevia a tentar.
A construção de mundo foi feita com pesquisa de verdade. Cada estilo de dobra é baseado num estilo real de arte marcial chinesa, com consultoria técnica: a dobra de água se apoia no tai chi, a de terra no hung gar, a de fogo no shaolin do norte e a de ar no bagua. Isso não é enfeite: os movimentos dos personagens seguem a lógica de cada estilo, e é por isso que as lutas parecem coerentes mesmo pra quem não sabe nada de artes marciais.
O elemento mais citado, no entanto, é a trajetória do Zuko. A transformação daquele personagem ao longo de três temporadas é rotineiramente apontada como a melhor arco de redenção já escrito para a televisão animada ocidental, justamente porque não acontece de uma vez, tem recaída e cobra preço. É o tipo de escrita que se estuda.
Some a isso um humor que funciona sem infantilizar, personagens femininas com objetivos próprios e um final que resolve o conflito central sem trair o pacifismo do protagonista. Não é nostalgia inflada. A série realmente é assim de boa.
Como a franquia se organiza hoje
A linha do tempo desse universo ficou grande, então vale um mapa rápido.
Depois da série original veio A Lenda de Korra, entre 2012 e 2014, com 52 episódios em quatro livros. A história pula setenta anos à frente, com a nova Avatar num mundo em processo de industrialização, e trocou a jornada de aventura por conflitos políticos e ideológicos. Dividiu o público na época e envelheceu muito bem.
Entre uma coisa e outra, a história continuou em quadrinhos publicados pela Dark Horse, que preenchem lacunas entre as séries e são considerados canônicos. Boa parte do que o filme novo pode tocar já foi estabelecida ali.
Em fevereiro de 2021, a Nickelodeon criou o Avatar Studios, uma divisão dedicada exclusivamente a esse universo, com Bryan Konietzko e Mike DiMartino no comando. Foi o reconhecimento de que a franquia sustenta produção contínua, e é dessa estrutura que saem tanto o filme de hoje quanto Seven Havens.
E existe ainda a trilha paralela em live-action, com a série da Netflix estreada em 2024, que segue independente do que o Avatar Studios produz. Ou seja, hoje existem duas versões da mesma história rodando ao mesmo tempo em plataformas concorrentes, o que é raro e confuso, mas bom para quem quer escolher.
Com Seven Havens avançando para a geração seguinte à Korra, a franquia passa a ter três protagonistas em três épocas diferentes. É estrutura de universo compartilhado sem precisar de crossover, e é provavelmente o formato mais saudável que uma animação pode ter.
O Paramount+ virou a casa da franquia
Vale olhar o que esse conjunto de anúncios significa para quem assina, ou pensa em assinar, o Paramount+ no Brasil.
Em três meses, a plataforma passa a concentrar o filme novo, a série nova e o acervo clássico da franquia no mesmo lugar. Filme hoje, Seven Havens em 9 de outubro, e as duas séries anteriores disponíveis para maratona no intervalo. Para uma casa que vinha apanhando na disputa por atenção, ter uma franquia inteira de animação com público fiel é um ativo forte.
Conselho de bolso: se você é fã e ainda não assina, não corra pra assinar hoje. O filme não vai sair do catálogo, e faz mais sentido esperar outubro, quando Seven Havens estreia. Aí você paga um mês e assiste ao filme, aos primeiros episódios da série nova e ainda revê a série original, tudo na mesma janela. Assinar agora significa pagar dois meses e meio pra ver noventa e nove minutos.
Vale lembrar que Seven Havens estreia de forma global, e não com atraso no Brasil. Isso já foi um problema crônico da plataforma em anos anteriores e parece resolvido, ao menos para os títulos grandes.
Onde isso pode dar errado
A preocupação aqui não é com a qualidade do que foi feito, é com o padrão de decisão do estúdio.
Essa franquia tem um histórico ruim de adaptações que decepcionaram. O filme em live-action de 2010, dirigido por M. Night Shyamalan, é lembrado como um dos piores casos de adaptação da década, a ponto de a própria fanbase tratar como se não existisse. A série em live-action da Netflix, de 2024, foi bem melhor recebida e rendeu novas temporadas, mas dividiu opinião entre quem achou fiel e quem achou morno.
Agora chega uma animação feita pelos criadores originais, elogiada pela crítica, e ela é despejada no streaming num sábado de julho, competindo com o barulho do próprio Comic-Con. É difícil não ler isso como falta de confiança do estúdio numa coisa que estava boa.
O caso comparável mais claro é o de animações que foram tiradas do cinema e jogadas direto no streaming nos últimos anos: quase todas sumiram do debate público em duas semanas, independentemente da qualidade. Filme precisa de janela e de conversa pra existir culturalmente, e streaming sozinho raramente entrega isso.
Do lado bom: com duas temporadas de Seven Havens já encomendadas e um filme bem recebido, essa franquia está mais viva do que esteve em uma década. E, sendo honesto, um filme que está disponível hoje na assinatura que muita gente já tem é infinitamente mais acessível ao público brasileiro do que uma estreia limitada de cinema seria.
Ficha técnica
- Título: Avatar Aang: O Último Mestre do Ar
- Direção: Lauren Montgomery
- Criadores da franquia: Bryan Konietzko e Mike DiMartino
- Vozes: Eric Nam (Aang), Jessica Matten (Katara), Román Zaragoza (Sokka), Dionne Quan (Toph), Steven Yeun (Zuko) e Dave Bautista (Tagah)
- Duração: 99 minutos
- Onde assistir: Paramount+, a partir de 25 de julho de 2026
- Exibição em cinema: limitada a duas salas nos Estados Unidos, entre 24 e 30 de julho
- Painel: Hall H do San Diego Comic-Con, em 23 de julho, apresentado por Janet Varney
- Avatar: Seven Havens: estreia global no Paramount+ em 9 de outubro, com 26 episódios divididos em dois livros
Vale a maratona?
Conselho direto: se você assistiu à série original, vale. É continuação feita pelos criadores, com direção competente e uma premissa que mexe no ponto mais sensível do protagonista. Noventa e nove minutos é compromisso pequeno.
Se você nunca viu Avatar: A Lenda de Aang, não comece por aqui. A série original tem 61 episódios divididos em três livros e é, com folga, uma das melhores animações já feitas para televisão, com uma construção de personagem que continua sendo estudada. Ela está disponível em streaming e é um dos programas de maratona mais recompensadores que existem. O filme faz muito mais sentido depois.
Aposta pessoal: acho que Seven Havens, em 9 de outubro, vai ser a coisa mais importante que essa franquia lança nesta década. Filme de continuação agrada quem já gosta. Série nova com protagonista nova é o que traz gente que ainda não chegou.
Avatar Aang: O Último Mestre do Ar está no Paramount+ desde hoje, 25 de julho de 2026.
E você, ficou chateado com o filme não ter ido pro cinema ou prefere assim mesmo? Conta aqui nos comentários.
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