A Odisseia do Nolan passa de US$ 199 milhões e mira um recorde que ele mesmo fez em 2008

A Odisseia, de Christopher Nolan (Divulgação/Universal Pictures)
A Odisseia, de Christopher Nolan (Divulgação/Universal Pictures)
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O dado mais importante de A Odisseia nesta semana não é um recorde. É uma queda que não aconteceu. Na quinta-feira, o filme de Christopher Nolan fez 17,6 milhões de dólares, apenas 3% abaixo dos 18 milhões da quarta. Bilheteria de dia útil praticamente parada é o que separa um evento de verdade de uma estreia que enche na sexta e murcha na terça.

Com isso, a primeira semana fechou em 199,3 milhões de dólares só nos Estados Unidos, algo em torno de 1,01 bilhão de reais pela cotação de 25 de julho de 2026, com o dólar a R$ 5,08. E as projeções para o segundo fim de semana subiram tanto durante a semana que o filme agora ameaça um recorde que o próprio Nolan estabeleceu em 2008.

O recorde de 2008 está na mira

Quando os números diários começaram a chegar, a projeção para o segundo fim de semana estava entre 61 e 74 milhões de dólares. Na sexta à tarde já tinha pulado para 84,5 milhões, cerca de 429 milhões de reais. Estúdios concorrentes falam em 90 milhões.

O recorde de segundo fim de semana da carreira do Nolan pertence a O Cavaleiro das Trevas, que em 2008 segurou 75,1 milhões. Qualquer um dos dois números projetados passa por cima disso.

E aqui está o detalhe que faz esse feito ser absurdo: estamos falando de uma adaptação de Homero, com três horas de duração e classificação restritiva nos Estados Unidos, sem franquia nenhuma por trás. Os dois filmes do Nolan que abriram melhor que este são filmes do Batman. Este é um poema grego escrito há quase três mil anos.

A matemática por trás da projeção é uma queda de 32% do primeiro para o segundo fim de semana. Pra comparar: a maioria dos grandes lançamentos perde 50% ou mais nesse intervalo. O filme também está sem concorrência direta, sem nenhum lançamento amplo de estúdio grande abrindo contra ele, e o número de salas até subiu, de 3.919 para 3.942. Distribuidora aumentando salas na segunda semana é distribuidora respondendo a demanda, não administrando queda.

Entre filmes de classificação restrita, 84,5 milhões no segundo fim de semana seria o segundo melhor da história, atrás apenas dos 96,8 milhões de Deadpool & Wolverine, em 2024. É essa a companhia que A Odisseia está fazendo, e chegou lá sem um único super-herói de uniforme.

Onde isso senta na carreira do Nolan

Vale organizar a estante. Considerando a primeira semana em bilheteria doméstica, A Odisseia, com 199,3 milhões, fica em terceiro na carreira do diretor.

À frente estão O Cavaleiro das Trevas, com 238,6 milhões, e O Cavaleiro das Trevas Ressurge, com 225 milhões. Atrás ficam Oppenheimer, com 127,8 milhões, e A Origem, com 100,1 milhões.

A abertura global também foi a maior da carreira dele: 124,5 milhões nos Estados Unidos e 264,1 milhões no mundo, cerca de 1,34 bilhão de reais. Desde então, o filme registrou a melhor segunda-feira de 2026 e a segunda melhor terça.

A diferença para o Oppenheimer

A comparação com Oppenheimer é inevitável e é reveladora. Aquele filme abriu com 82 milhões e terminou com 330 milhões nos Estados Unidos e 975 milhões no mundo.

Só que Oppenheimer teve um empurrão que nenhum departamento de marketing consegue comprar: o fenômeno de estrear no mesmo dia que Barbie, que virou piada, meme e programa duplo de cinema no mundo inteiro. Foi uma onda cultural acidental.

A Odisseia está andando à frente daquele ritmo sem nada parecido. O que está segurando aqui são as notas: 95% de aprovação da crítica e 97% do público no Rotten Tomatoes, além de nota A no CinemaScore, que mede a satisfação de quem acabou de sair da sessão. Nota A em filme de três horas com final conhecido de antemão é o tipo de coisa que faz gente comprar ingresso pra ver de novo.

O filme mais caro que ele já fez

O orçamento estimado é de 250 milhões de dólares, cerca de 1,27 bilhão de reais. É o filme mais caro da carreira do Nolan, e por uma margem larga.

Vale mastigar essa conta, porque bilheteria alta não significa lucro automático. A regra de bolso da indústria é que um filme precisa fazer entre duas e duas vezes e meia o orçamento para empatar, já que o exibidor fica com aproximadamente metade da bilheteria e ainda existe o custo de marketing, que num lançamento desse porte passa fácil de 100 milhões. Ou seja, o ponto de equilíbrio de A Odisseia deve estar em algum lugar entre 600 e 700 milhões de dólares mundiais.

Com 264,1 milhões de abertura global e a segunda semana projetada em 84,5 milhões só nos Estados Unidos, esse ponto vai ser atravessado bem rápido. O bilhão, que era conversa de otimista há duas semanas, virou hipótese realista.

Filmado inteiro em IMAX de 70mm

A parte técnica desse projeto merece atenção porque explica boa parte da bilheteria.

A Odisseia é o primeiro longa da história filmado inteiramente com câmeras IMAX de 70mm. O Nolan já usava essas câmeras havia anos, mas sempre em trechos, porque elas são pesadas, barulhentas e difíceis de operar em cena de diálogo. Filmar um filme inteiro assim exigiu tecnologia nova desenvolvida junto com a própria IMAX.

O resultado prático é que as sessões em tela grande viraram o produto principal, e não um complemento com ingresso mais caro. Os ingressos para as exibições em película de 70mm começaram a ser vendidos com um ano de antecedência e esgotaram. Uma fatia enorme da bilheteria veio dessas salas.

Isso é uma inversão importante do modelo. Durante duas décadas, o cinema tentou competir com a televisão em casa oferecendo conforto e comida. O Nolan vem apostando em outra coisa: oferecer uma imagem que é fisicamente impossível de reproduzir numa sala de estar. Os números desta semana sugerem que a aposta está certa.

A briga pelas salas grandes

Existe um problema bom no horizonte. O filme vai perder parte das salas IMAX digitais nas próximas semanas, por causa de compromissos já assumidos com outros lançamentos, mas mantém as salas de película de 70mm, que são as mais disputadas.

Essa distinção confunde muita gente, então vale explicar. IMAX digital é a maioria absoluta das salas com essa marca no mundo, incluindo as do Brasil. Já a projeção em película de 70mm existe num número pequeno de salas, porque exige projetor físico de filme, operador treinado e rolos que pesam dezenas de quilos. É outra experiência, e é a que os cinéfilos estão viajando para ver.

Manter essas sessões enquanto libera as digitais é uma jogada esperta da Universal: preserva o produto exclusivo, que sustenta preço alto e boca a boca, e devolve capacidade para o resto do calendário. Se você tem uma sala dessas ao seu alcance, é o tipo de sessão que vale planejar viagem.

Um elenco que parece brincadeira

A lista de nomes desse filme é o tipo de coisa que, escrita em qualquer outro contexto, pareceria invenção.

Matt Damon é Odisseu. Zendaya é Atena. E ainda estão no elenco Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o, Charlize Theron e John Leguizamo.

Pra quem não conhece a dinâmica, o Nolan costuma trabalhar com um grupo recorrente de atores. Hathaway vem de Interestelar e O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Pattinson fez Tenet. Damon apareceu em Interestelar e em Oppenheimer. É um diretor que constrói confiança e volta a chamar.

Um detalhe de bastidor que circulou bastante: John Leguizamo, que interpreta o pastor Eumeu, trabalhou o personagem como cego, característica que não existe no texto de Homero. É o tipo de decisão de ator que ou some no corte final ou vira a coisa mais comentada do filme.

Por que Homero, e por que agora

Vale parar um segundo no que esse filme é. A Odisseia é um poema atribuído a Homero, composto por volta do século 8 antes de Cristo. Estamos falando de uma história com quase 2.800 anos sendo o maior lançamento de cinema de 2026.

O Nolan descreveu o projeto como uma épica de ação mítica, e a escolha faz mais sentido do que parece à primeira vista. A obra tem tudo que ele gosta de manipular: tempo fora de ordem, já que o poema começa perto do fim e volta atrás; um protagonista que resolve problema pensando em vez de batendo; e uma estrutura de viagem que permite trocar completamente de cenário e de regras a cada trecho.

Adaptações anteriores existiram, e a lista é curta. Ulisses, de 1954, com Kirk Douglas, foi uma superprodução italiana da época em que Hollywood filmava mitologia com cenário pintado. Em 1997, uma minissérie de televisão com Armand Assante, dirigida por Andrei Konchalovsky, ganhou Emmy e é lembrada com carinho por quem viu na TV. E em 2000, os irmãos Coen fizeram E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, uma leitura livre transplantada para o sul dos Estados Unidos dos anos 1930, provavelmente a adaptação mais criativa que o material já recebeu.

Nenhuma delas tentou o que este filme tentou: encarar o texto como espetáculo de grande orçamento, sem ironia e sem transplante. Era um risco enorme, porque o público moderno associa mitologia grega a filme de espadas caça-níquel dos anos 2010, e essa lembrança não é boa.

Tem também um contexto de indústria por trás. Oppenheimer, de 2023, foi o primeiro filme do Nolan pela Universal depois de duas décadas de parceria com a Warner. Ele rompeu com o estúdio antigo por causa da decisão de 2021 de lançar o catálogo inteiro simultaneamente no cinema e no streaming, algo que ele considerou uma traição à sala de exibição. A carreira dele desde então virou uma demonstração prática de que sala de cinema ainda vale, e este filme é o argumento mais forte que ele já apresentou.

O que mais estreou nesse fim de semana

Enquanto A Odisseia ocupa o topo sem concorrente direto, o resto do calendário se organizou embaixo dela, e algumas estreias merecem nota.

A mais curiosa é Hadestown: The Musical, a gravação ao vivo da montagem londrina do musical, distribuída pela Bleecker Street. Fez 1,5 milhão de dólares nas pré-estreias de quinta e projeta entre 7,5 e 9 milhões em 1.949 salas.

O detalhe delicioso é que o lançamento tinha sido planejado como evento fechado de cinco noites, com poucas sessões. A procura dos exibidores foi tão alta que a distribuidora precisou adicionar horários e transformar aquilo numa estreia ampla convencional. O filme chega com 100% de aprovação da crítica e 99% do público no Rotten Tomatoes. Se ficar no topo da projeção, entra entre as maiores estreias já registradas por uma gravação de espetáculo de teatro, categoria que Hamilton praticamente inventou.

E existe uma coincidência temática ótima aqui: Hadestown é uma releitura do mito de Orfeu e Eurídice. Ou seja, os dois filmes que mais chamam atenção neste fim de semana americano são mitologia grega. Não acontece com frequência.

No circuito menor, Motor City, da IFC, é a curiosidade do fim de semana: um filme de vingança ambientado na Detroit dos anos 70, praticamente sem diálogo, com trilha selecionada por Jack White e elenco com Alan Ritchson, Shailene Woodley, Ben Foster e Pablo Schreiber. Fez 475 mil dólares em pré-estreias.

E Her Private Hell, da Neon, marca a volta de Nicolas Winding Refn ao longa-metragem, com Sophie Thatcher e Charles Melton. As críticas estão divididas, com 45% de aprovação, o que para o diretor de Drive é praticamente rotina: os filmes dele sempre rachem a crítica ao meio.

Lendo o fim de semana inteiro junto, o quadro é curioso. A aposta autoral de três horas virou o filme de massa, e o musical de teatro e os títulos de festival ocupam a faixa alternativa embaixo dele. A linha que separava cinema de prestígio de cinema de pipoca não está mais onde estava.

Onde isso pode dar errado

Duas ressalvas, e nenhuma delas é sobre qualidade.

A primeira é o teto. Oppenheimer teve tudo a favor, incluindo uma onda cultural irrepetível e sete Oscars, e parou em 975 milhões de dólares. Não cruzou o bilhão. Filme adulto, longo e falado tem um limite natural de público que nem o melhor boca a boca resolve, porque uma parcela grande do mercado global simplesmente não compra ingresso pra três horas de drama. A Odisseia está pacing melhor, mas está atacando a mesma barreira que derrubou o filme anterior.

A segunda é a duração combinada com a classificação. Três horas significa menos sessões por dia em cada sala, o que limita mecanicamente quanto dinheiro uma sala consegue gerar. Classificação restritiva corta a família com criança, que é justamente o público que enche cinema em julho. O filme está vencendo apesar dessas duas âncoras, não por causa delas, e num segundo mês elas pesam mais.

Existe ainda uma leitura de temporada de prêmios que vale registrar. A avaliação que circula entre membros da Academia é muito positiva, mas as apostas apontam mais para as categorias técnicas, como fotografia, som, montagem e efeitos, do que para atuação. Faz sentido: é um filme de imagem monumental com elenco enorme, e elenco enorme costuma dividir votos em vez de concentrar.

Do lado bom, e é um lado grande: um filme original, caro, longo e de diretor sendo o maior lançamento do país é a melhor notícia possível pra quem gosta de cinema. Se essa aposta der certo, outros estúdios vão tentar repetir, e isso significa mais filmes grandes que não são continuação de nada.

Ficha técnica

  • Título: A Odisseia
  • Direção e roteiro: Christopher Nolan
  • Distribuição: Universal Pictures
  • Elenco: Matt Damon, Zendaya, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o, Charlize Theron e John Leguizamo
  • Duração: cerca de três horas
  • Orçamento: aproximadamente 250 milhões de dólares, cerca de 1,27 bilhão de reais
  • Formato: primeiro longa filmado inteiramente com câmeras IMAX de 70mm
  • Abertura: 124,5 milhões de dólares nos Estados Unidos e 264,1 milhões no mundo
  • Primeira semana doméstica: 199,3 milhões de dólares em 3.919 salas
  • Projeção do segundo fim de semana: 84,5 milhões de dólares, com estúdios rivais falando em 90 milhões
  • Notas: 95% da crítica e 97% do público no Rotten Tomatoes, e nota A no CinemaScore

Vai chegar ao bilhão?

Aposta pessoal, e assumo que é aposta: acho que sim, e acho que passa com folga.

O argumento não é o tamanho da abertura, é a forma da curva. Queda de 3% numa quinta-feira, aumento de salas na segunda semana e nota A do público são os três indicadores que historicamente antecedem uma carreira longa em cartaz. Filme com esse comportamento não colapsa no terceiro fim de semana, ele desce devagar e junta dinheiro por dois meses.

Some a isso o fato de o mercado internacional ainda estar em expansão para esse título e de as salas de 70mm continuarem esgotando. Se o filme mantiver quedas na casa dos 35%, o bilhão sai antes do fim de setembro.

E tem uma coisa que ultrapassa a planilha. Em 2026, o maior filme dos Estados Unidos é uma adaptação de Homero feita por um diretor que insistiu em filmar em película e em exibir em tela gigante. Quem apostava que só existia espaço para franquia e continuação estava errado, e é ótimo estar errado nesse assunto.

E você, já viu em tela grande ou está esperando sessão IMAX? Conta aqui nos comentários se valeu o ingresso.

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