Os Prêmios Eisner, que funcionam como o Oscar dos quadrinhos, foram entregues na noite de sexta-feira, 24 de julho, no Hilton San Diego Bayfront, durante o San Diego Comic-Con. Foram 32 categorias mais as honrarias especiais, com apresentação de Phil LaMarr e Thomas Lennon.
E teve um nome que fez a plateia levantar: Akira Toriyama, criador de Dragon Ball, morto em março de 2024, entrou para o Hall da Fama do prêmio. Não por escolha de júri, mas pelo voto direto da indústria. Teve também um vazamento que estragou a surpresa, um argentino desaparecido pela ditadura entrando na lista dos imortais e dois brasileiros disputando categorias técnicas.
O vazamento que entregou tudo antes
Comecemos pelo constrangimento. Os vencedores deveriam ser revelados apenas na cerimônia de sexta à noite, mas o resultado da votação apareceu publicamente ainda no começo da semana, de forma não intencional.
Quando a lista completa circula dias antes, a cerimônia perde a função dramática e vira confirmação. Quem acompanha quadrinhos já sabia quem tinha ganhado quando entrou no salão. É um vacilo de operação, não de conteúdo, mas mancha um prêmio que tem quase quatro décadas de credibilidade.
Vale registrar que não é a primeira vez que os Eisner enfrentam problema de processo. O sistema de votação já passou por reformulações depois de reclamações sobre acesso e sobre a composição do júri. Prêmio de indústria vive de confiança, e confiança se administra no detalhe.
Toriyama entrou pelo voto, não pelo júri
O Hall da Fama dos Eisner tem duas portas. Uma é a escolha do júri, que seleciona nomes diretamente. A outra é a escolha dos votantes, em que o júri indica candidatos e a indústria decide.
Akira Toriyama entrou pela segunda porta. Ele estava entre 16 indicados anunciados em fevereiro, ao lado de nomes como Mark Waid, Peter Kuper, Posy Simmonds e Kevin Nowlan, e apenas quatro seriam eleitos. Os escolhidos foram Colleen Doran, Jeff Smith, Chris Ware e o próprio Toriyama.
A diferença entre as duas portas importa. Entrar por escolha de júri é reconhecimento institucional. Entrar por votação é a indústria inteira, majoritariamente americana e majoritariamente formada por gente de quadrinho de super-herói, decidindo que o cara que desenhou o Goku pertence ao mesmo panteão de Will Eisner e Jack Kirby.
Pra quem não conhece a dimensão do trabalho dele: Toriyama começou com Dr. Slump em 1980, emplacou Dragon Ball na Weekly Shonen Jump entre 1984 e 1995, e ainda assinou o design de personagens da série de jogos Dragon Quest, que no Japão é maior que qualquer coisa que a gente imagine daqui. Ele morreu em 1º de março de 2024, aos 68 anos, e a repercussão foi global de um jeito que raríssimo autor de quadrinhos alcança.
Ele agora se junta a uma lista curta de japoneses no Hall da Fama, que inclui Osamu Tezuka, Katsuhiro Otomo, Rumiko Takahashi, Moto Hagio, Keiji Nakazawa, Shigeru Mizuki e Junji Ito.
Go Nagai entrou no mesmo ano
E não foi só ele. Go Nagai entrou pela escolha do júri, no mesmo ano. Dois mangakás numa cerimônia só.
Pra quem não conhece o nome, Nagai é o criador de Mazinger Z, de 1972, que praticamente inventou o formato do robô gigante pilotado por dentro, base de tudo que veio depois, de Jeeg a Evangelion. Ele também criou Devilman e Cutie Honey. No Brasil, quem cresceu nos anos 80 e 90 viu Mazinger Z na televisão sem necessariamente saber o nome de quem tinha desenhado aquilo.
Ter Toriyama e Nagai na mesma leva diz algo sobre para onde os Eisner estão olhando. Por décadas o prêmio foi acusado de tratar mangá como categoria estrangeira separada, e não como parte central da história dos quadrinhos. Isso está mudando, e a velocidade da mudança aumentou.
O argentino que a ditadura fez desaparecer
Entre os 19 nomes escolhidos pelo júri está um que merece parágrafo próprio por aqui: Héctor Germán Oesterheld.
Pra quem não conhece, ele é o roteirista argentino de O Eternauta, publicado a partir de 1957, com desenhos de Francisco Solano López. A história começa com uma nevasca mortal caindo sobre Buenos Aires e vira uma das obras mais importantes da ficção científica latino-americana, com um herói coletivo em vez de salvador solitário, ideia que era política e continua sendo.
Oesterheld foi sequestrado pela ditadura militar argentina em 1977 e nunca mais apareceu. As quatro filhas dele também foram desaparecidas. Ele é, provavelmente, o autor de quadrinhos mais famoso do mundo a ter sido morto por um Estado por causa da própria militância.
O Eternauta ganhou série na Netflix em 2025, produzida na Argentina, e apresentou a obra a um público enorme que nunca tinha ouvido falar dela. Ver o nome dele entrar no Hall da Fama americano no ano seguinte não é coincidência, e é uma das melhores notícias desta edição para quem lê quadrinho na América Latina. Se você nunca leu, a edição brasileira existe e vale cada página.
Tem brasileiro nessa lista
Nas categorias técnicas, dois brasileiros apareceram entre os indicados.
Mateus Manhanini concorreu a melhor capista, com trabalhos em Absolute Superman, Absolute Wonder Woman e Mr. Terrific: Year One pela DC, além de uma lista enorme de capas variantes na Marvel, incluindo Doutor Estranho, Miles Morales e Storm.
Matheus Lopes concorreu a melhor colorista, por Batman and Robin: Year One, da DC, e The Seasons, da Image.
Não é pouca coisa. Colorista e capista brasileiros disputando espaço com os maiores nomes do mercado americano é a continuação de uma tradição que começou com gente como Mike Deodato Jr. e Ivan Reis, e que hoje coloca profissionais daqui em praticamente todo título grande das duas editoras. O Brasil virou fornecedor estrutural de arte para o mercado americano de quadrinhos, e quase ninguém comenta isso.
A linha Absolute dominou a noite
Do lado das obras, a grande vencedora foi a DC, e mais especificamente a linha Absolute. Segundo a cobertura da cerimônia, a editora levou 10 categorias.
Absolute Batman 2025 Annual número 1, de Daniel Warren Johnson, James Harren e Meredith McClaren, ganhou melhor edição única. Absolute Batman, de Scott Snyder e Nick Dragotta, levou melhor série em andamento, e Absolute Martian Manhunter, de Deniz Camp e Javier Rodriguez, ficou com melhor minissérie e com melhor desenhista e arte-finalista.
Pra quem não acompanha o mercado americano, vale explicar o que é essa linha. A DC lançou o Universo Absolute no fim de 2024 com uma proposta simples e ousada: pegar os personagens principais e recomeçar tudo num mundo onde eles têm menos recursos e mais dificuldade. O Batman não é bilionário. A Mulher-Maravilha não foi criada em Temiscira. O Superman não tem a Fortaleza da Solidão.
É o tipo de aposta que costuma soar como truque de marketing e que, nesse caso, funcionou artisticamente. Tirar o dinheiro do Batman força o roteiro a resolver problemas de outro jeito, e quatro Eisners para a mesma linha em um ano só mostram que a indústria comprou a ideia. Também vale notar o alcance: DC Pride 2025 levou melhor antologia, e Superman’s Pal, Jimmy Olsen: The Deluxe Edition, de Matt Fraction e Steve Lieber, ficou com melhor álbum reeditado.
George Takei ganhou o dele no mesmo fim de semana
Uma coincidência bonita do calendário: George Takei venceu na categoria de melhor memória em quadrinhos com It Rhymes with Takei, publicado pela Top Shelf, com Harmony Becker, Steven Scott e Justin Eisinger.
É o mesmo time criativo de They Called Us Enemy, o livro em que ele contou a infância dentro dos campos de internamento onde os Estados Unidos prenderam cidadãos de origem japonesa durante a Segunda Guerra. O novo trabalho trata da vida dele fora dos palcos e do processo de assumir a própria identidade.
E na tarde seguinte, no sábado, Takei entrou no Hall H aos 89 anos para o painel de 60 anos de Star Trek e recebeu a plateia inteira de pé. Ganhar um Eisner e ser ovacionado no maior palco da convenção no mesmo fim de semana, seis décadas depois de estrear como Sulu, é um final de carreira que roteirista nenhum escreveria sem ser acusado de exagero.
O mangá e o manhwa levaram três
Além do Hall da Fama, os quadrinhos asiáticos venceram em três frentes.
Blood Harvest, do mangaká Shintaro Kago, publicada em Brain Damage pela Fantagraphics com tradução de Zack Davisson, ganhou melhor história curta. Kago é conhecido por um estilo perturbador e experimental, bem distante do mangá comercial, e o fato de ele ter emplacado duas indicações na mesma categoria diz muito.
Purgatory Funeral Cakes, do sul-coreano Sanho, publicado pela Dark Horse com tradução de Danny Lim, venceu melhor edição americana de material internacional da Ásia. É manhwa, não mangá, o que reforça o crescimento dos quadrinhos coreanos no mercado ocidental.
E a coleção em capa dura de AKIRA, de Katsuhiro Otomo, publicada pela Kodansha, ganhou melhor projeto de arquivo em revistas. Um detalhe saboroso pra quem acompanha o giro: Akira volta aos cinemas em 4K este ano, quase quarenta anos depois. A obra está tendo um segundo momento em dois formatos ao mesmo tempo.
Os prêmios especiais e as melhores falas da noite
O Prêmio Bill Finger de excelência em roteiro, que existe para reconhecer autores que não receberam o crédito devido em vida, foi para Jenny Blake Isabella, criadora do Raio Negro, e para o falecido Martin Pasko. A entrega foi feita por Mark Evanier e por Athena Finger, neta do Bill Finger, o co-criador do Batman que passou décadas sem crédito.
No discurso, segundo a cobertura do The Beat, ela resumiu a relação dela com o ofício:
“Quero escrever quadrinhos até morrer”
O Prêmio Bob Clampett Humanitário foi para Wendy Pini e Richard Pini, criadores de ElfQuest, uma das obras independentes mais influentes da história americana e um dos primeiros grandes casos de autopublicação bem sucedida.
E o Prêmio Russ Manning de revelação ficou com o artista Stipan Morian, de Our Soot Stained Heart e 20th Century Men. O discurso dele foi o mais curto e o mais engraçado da noite: disse que deve ser o novato mais velho da história e agradeceu.
Na leva do júri para o Hall da Fama também entraram nomes de peso do mercado americano, como Don Heck, co-criador do Homem de Ferro, Gerry Conway, criador do Justiceiro, Denys Cowan, um dos fundadores da Milestone Media, e Dave Sim, de Cerebus. Ao todo, 23 pessoas entraram no Hall da Fama em 2026.
De onde vem esse prêmio
Vale um parágrafo de contexto pra quem nunca parou pra pensar de onde saiu esse nome.
Os Eisner existem desde 1988 e homenageiam Will Eisner, autor americano que fez duas coisas gigantes. A primeira foi The Spirit, tira de jornal criada em 1940 em que ele usou enquadramento, sombra e letreiro de um jeito que os quadrinhos ainda não tinham experimentado, influenciando praticamente todo desenhista que veio depois.
A segunda foi Um Contrato com Deus, de 1978, uma coletânea de histórias sobre moradores de um cortiço no Bronx. Não foi tecnicamente o primeiro livro do tipo, mas foi o que popularizou a expressão graphic novel e ajudou a convencer o mercado de que quadrinho podia ser vendido em livraria, para adultos, sobre gente comum. Sem aquele livro, boa parte do que ganhou prêmio nesta sexta-feira não existiria como categoria.
Eisner entregou pessoalmente o troféu que leva o nome dele até morrer, em janeiro de 2005, aos 87 anos. Ele trabalhou praticamente até o fim.
As outras categorias que valem sua atenção
Fora dos holofotes das grandes editoras, a lista de vencedores funciona como uma ótima lista de compras. Vale destacar algumas.
The Cartoonists Club, de Raina Telgemeier e Scott McCloud, ganhou melhor publicação infantil. Essa dupla é impressionante: Telgemeier é a autora que transformou quadrinho para crianças em fenômeno de vendas nos Estados Unidos, e McCloud escreveu Desvendando os Quadrinhos, o livro que ensinou gerações a entender como a linguagem funciona. Os dois fazendo uma história sobre crianças que fazem histórias em quadrinhos é quase autobiografia coletiva.
This Place Kills Me, de Mariko Tamaki e Nicole Goux, foi duplamente premiada, levando melhor publicação para adolescentes e, segundo a cobertura da cerimônia, também melhor roteirista para Tamaki. Ela já era conhecida por Este Verão e por trabalhos na DC e na Marvel.
Na não ficção, Black Arms to Hold You Up, de Ben Passmore, levou melhor obra baseada em fatos reais, com uma história da resistência negra nos Estados Unidos. E Crumb: A Cartoonist’s Life, de Dan Nadel, ganhou melhor livro sobre quadrinhos, uma biografia do Robert Crumb, figura tão influente quanto controversa do underground americano.
Duas adaptações merecem nota. O Senhor das Moscas, o clássico de William Golding adaptado pela holandesa Aimée De Jongh, venceu melhor adaptação de outra mídia. E na categoria de arquivo em tiras, a vitória foi de The George Herriman Library: Krazy & Ignatz 1928-1930, resgatando uma das tiras mais experimentais e queridas da história do jornalismo americano.
Nas categorias digitais, Tiger, Tiger, de Petra Erika Nordlund, ganhou melhor webcomic, e é gratuito na internet. Physics for Cats, de Tom Gauld, levou melhor publicação de humor. Se você quer entrar no assunto sem gastar nada, o webcomic vencedor é o caminho mais fácil que existe.
Onde isso pode dar errado
Duas críticas, e nenhuma delas diminui os vencedores.
A primeira é o vazamento, e o problema não é o vexame em si, é o que ele indica. Os Eisner já reformularam o processo de votação antes por causa de reclamações sobre acesso, e um resultado escapando dias antes da cerimônia sugere que a operação continua frágil. Existe um caso comparável recente que mostra o tamanho do estrago possível: em 2023, os Prêmios Hugo, de ficção científica, tiveram um escândalo de manipulação de indicações que abalou a credibilidade do prêmio por anos. Vazamento não é manipulação, mas ambos nascem da mesma raiz, que é processo mal controlado.
A segunda é estrutural. Para concorrer aos Eisner, uma obra precisa ter sido publicada em inglês nos Estados Unidos. Isso significa que quadrinho brasileiro, argentino ou coreano só entra na conversa quando uma editora americana decide traduzir. O caso do Oesterheld ilustra bem: ele entrou no Hall da Fama 49 anos depois de ter sido desaparecido, e a série da Netflix teve papel claro nisso. A obra sempre foi genial. O que mudou foi a visibilidade em inglês.
Do lado bom: dois mangakás e um argentino no Hall da Fama do mesmo ano é a prova de que essa porta está se abrindo, mesmo que devagar.
Ficha técnica
- Evento: 2026 Will Eisner Comic Industry Awards, no Hilton San Diego Bayfront
- Data: 24 de julho de 2026, durante o San Diego Comic-Con
- Apresentação: Phil LaMarr e Thomas Lennon
- Categorias: 32, mais as honrarias especiais
- Hall da Fama: 23 nomes, sendo 19 por escolha do júri e 4 por votação
- Eleitos pelo voto: Akira Toriyama, Colleen Doran, Jeff Smith e Chris Ware
- Destaques do júri: Go Nagai, Héctor Germán Oesterheld, Don Heck, Gerry Conway, Denys Cowan e Dave Sim
- Editora com mais prêmios: DC, com 10 categorias
- Prêmio Bill Finger: Jenny Blake Isabella e o falecido Martin Pasko
- Prêmio Bob Clampett: Wendy Pini e Richard Pini, de ElfQuest
- Prêmio Russ Manning de revelação: Stipan Morian
- Brasileiros indicados: Mateus Manhanini (capa) e Matheus Lopes (cor)
O que fica dessa edição
Fica uma coisa que vai muito além de lista de vencedor. Numa mesma noite, o prêmio mais tradicional dos quadrinhos americanos colocou no seu panteão o japonês que ensinou o mundo inteiro a desenhar luta, o japonês que inventou o robô pilotado e o argentino que a ditadura do próprio país fez desaparecer por escrever ficção científica com herói coletivo.
Isso é um recado sobre o que os quadrinhos são hoje. Não é mais uma indústria americana com apêndices estrangeiros. É um campo global em que Dragon Ball, O Eternauta e Absolute Batman disputam a mesma noite e cabem no mesmo salão.
Aposta pessoal: o próximo grande movimento vem do manhwa. A vitória de Sanho não é acidente isolado, é sintoma. Os quadrinhos coreanos estão fazendo com o mercado ocidental na década de 2020 o que o mangá fez nos anos 2000, e daqui a cinco anos essa conversa vai estar em outro lugar.
Se você quer começar por algum lugar depois de ler isso, minha sugestão é O Eternauta. É o mais próximo de nós, é curto e não sai da cabeça.
E você, concorda com a entrada do Toriyama pelo voto popular? Conta aqui nos comentários qual autor você acha que ainda falta nesse Hall da Fama.
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