O Hall H do San Diego Comic-Con se levantou inteiro neste sábado, 25 de julho, quando George Takei entrou no palco numa cadeira de rodas. Aos 89 anos, o eterno Sulu da série original abriu a parte comemorativa do painel Star Trek Universe, que juntou representantes de praticamente todas as séries da franquia para marcar os 60 anos que Star Trek completa em setembro.
Foram 1 hora e 15 minutos divididos em duas metades: a primeira dedicada à quarta temporada de Star Trek: Strange New Worlds, que estreou em 23 de julho, e a segunda a uma reunião histórica com dez cadeiras no palco. Teve anúncio, teve emoção de verdade e teve uma piada sobre Spock e Kirk que a internet vai repetir por semanas.
Dez cadeiras e quase seis décadas
A Paramount escolheu um representante de cada série, e a lista dá noção do tamanho do que a franquia construiu.
George Takei pela série clássica. Michael Dorn, o Worf, cobrindo A Nova Geração, Deep Space Nine e Picard de uma vez só, porque ele esteve nas três. Cirroc Lofton, o Jake Sisko, por Deep Space Nine. Robert Picardo, o Doutor, por Voyager e também por Starfleet Academy, onde ele voltou ao papel. Doug Jones, o Saru, por Discovery. Michelle Hurd, a Raffi, por Picard. Jerry O’Connell, o Jack Ransom, por Lower Decks. Christina Chong por Strange New Worlds e Karim Diané por Starfleet Academy.
Completando o time, Rod Roddenberry, filho de Gene Roddenberry, criador da franquia, e de Majel Barrett-Roddenberry. Ele abriu a segunda parte falando sobre o conceito de diversidade infinita em combinações infinitas, a famosa sigla IDIC que virou a base filosófica dos vulcanos, e lembrou que a série sempre falou de onde a humanidade pode chegar, não de onde ela está.
A apresentação ficou com Scott Mantz, crítico de cinema e fã declarado, que levou ao palco um pôster original da série que ele pendurou na parede aos sete anos de idade.
A ausência que virou piada
Connor Trinneer, o Trip Tucker de Enterprise, estava anunciado e acabou não comparecendo. Quem apareceu no lugar foi Dominic Keating, o tenente Malcolm Reed da mesma série.
Keating resolveu a situação da melhor maneira possível. Perguntado sobre o que tornava Enterprise especial, respondeu primeiro que era um elenco bonito, e depois se apresentou como o Scott Bakula de desconto, já que o protagonista da série também não pôde ir. A plateia riu, e ele emendou no mesmo discurso otimista que atravessou o painel inteiro.
Também faltaram três nomes do elenco fixo de Strange New Worlds: Babs Olusanmokun, o doutor M’Benga, Jess Bush, a enfermeira Chapel, e Martin Quinn, o Scotty.
Por que o Worf apanhava tanto
O melhor momento de bastidor veio de Michael Dorn. Ele contou que, durante A Nova Geração, foi perguntar a Gene Roddenberry por que o Worf vivia apanhando de todo mundo. A resposta do criador foi didática: derrubar o klingon serve para o público entender rapidamente que o inimigo da semana é perigoso de verdade.
Dorn, então, apontou que o Data, um androide, também serviria muito bem para essa função. Roddenberry mandou ele sair da sala.
A história é engraçada, mas ela explica uma regra de roteiro que atravessa décadas de televisão. Existe um termo em inglês para isso, e é justamente da franquia que ele nasceu no vocabulário dos fãs: o personagem forte que apanha primeiro para estabelecer a ameaça. Worf foi o exemplo mais notório da história do gênero, e agora sabemos que era decisão consciente do próprio criador.
A fala que fez o Hall H silenciar
Michelle Hurd emocionou a plateia falando do pai. Ela contou que assistia às reprises da série clássica com ele, e refletiu sobre o que significava ver a tenente Uhura, interpretada por Nichelle Nichols, no comando das comunicações da nave, sendo uma mulher negra na televisão americana dos anos 60.
Vale lembrar o contexto pra quem não conhece essa história. Nichelle Nichols pensou em deixar a série depois da primeira temporada, e quem a convenceu a ficar foi Martin Luther King Jr., que argumentou que a personagem era uma das poucas imagens de dignidade negra na TV americana. Ela ficou. Décadas depois, virou também recrutadora da NASA, num programa que ajudou a trazer mulheres e pessoas negras para a agência espacial.
Hurd fechou o assunto mandando alguns palavrões na direção de quem espalha ódio, e se justificou dizendo que é de Nova York. O Hall H aplaudiu de pé.
O torpedo que o Wil Wheaton mandou
Jerry O’Connell, que faz o comandante Jack Ransom em Lower Decks, contou que a primeira pessoa a mandar mensagem quando a escalação dele foi anunciada foi Wil Wheaton, o Wesley Crusher de A Nova Geração e colega dele em Conta Comigo, o filme de 1986 dirigido por Rob Reiner.
A mensagem era curta: bem-vindo à Frota Estelar, comandante.
É o tipo de detalhe pequeno que explica por que essa franquia tem a longevidade que tem. Dois garotos que fizeram um filme juntos nos anos 80 se reencontram quarenta anos depois dentro do mesmo universo ficcional, um deles como veterano e o outro como novato.
O que apareceu da quarta temporada
A primeira metade do painel mostrou material inédito dos próximos episódios de Strange New Worlds, que estreou a quarta temporada em 23 de julho no Paramount+, com 10 episódios semanais e final marcado para 24 de setembro de 2026.
Duas coisas chamaram atenção no material: um penteado novo da Uhura, de Celia Rose Gooding, e, em algum ponto, um dragão cuspindo fogo. Sim, dragão. Essa temporada tem sido descrita pela crítica como a que mais varia de tom na história da série, e uma criatura dessas aparecendo no meio de uma temporada de exploração espacial é bem coerente com essa fama.
Rebecca Romijn, que faz a Una Chin-Riley, comentou o orgulho de dar profundidade a uma personagem que, na série original, tinha apenas 13 minutos de tempo de tela na história inteira. É um dado que resume bem o que Strange New Worlds se propôs a fazer: pegar figuras que existiam como nota de rodapé e transformar em gente.
Celia Rose Gooding disse que interpretar a Uhura é a maior honra da carreira dela até aqui, e que está animada para o público ver o que vem pela frente.
A piada que a internet vai repetir
Num dos momentos mais soltos, Paul Wesley, que interpreta o James T. Kirk, virou para Ethan Peck, o Spock, e perguntou se os dois não tinham ido tomar um café justamente para conversar sobre Spirk.
Pra quem não conhece o termo, Spirk é o nome que o fandom dá ao emparelhamento romântico entre Spock e Kirk, e ele é historicamente importante: a comunidade de fanfiction moderna nasceu em torno dessa dupla, nos fanzines dos anos 70. Ou seja, os dois atores brincando com isso no palco do Hall H é a franquia reconhecendo publicamente uma tradição de meio século de fãs.
A plateia foi ao delírio.
O anúncio de verdade veio no fim
Entre tanta comemoração, saiu uma novidade concreta. Karim Diané anunciou que Ruaridh Aldington se junta ao elenco da segunda temporada de Star Trek: Starfleet Academy como Keats, um alienígena descrito como cadete encrenqueiro.
E aqui vale o contexto que a maior parte da cobertura vai deixar de fora: essa segunda temporada é a última. Starfleet Academy estreou em janeiro de 2026, liderada por Holly Hunter, vencedora do Oscar por O Piano. A série já tinha sido renovada antecipadamente para uma segunda temporada antes mesmo de estrear, mas em março de 2026 o Paramount+ confirmou que ela termina aí. O motivo apontado foi audiência: os dez episódios da primeira temporada não conseguiram entrar no top 10 semanal de streaming.
As gravações da segunda temporada já terminaram, em 24 de fevereiro de 2026, e ela deve estrear no começo de 2027, também com dez episódios. Ou seja, o Keats anunciado hoje é um personagem que já foi filmado e que tem uma temporada de vida pela frente. Não é o começo de nada, é o encerramento de uma história.
A série pra crianças ganhou segunda temporada
O painel também exibiu um trecho de Star Trek: Scouts, feito especialmente para o Hall H, e confirmou a renovação da série.
Pra quem não conhece, Scouts é a primeira extensão da franquia voltada para o público pré-escolar. Produzida pelo Nickelodeon Digital Studio em parceria com o CBS Studios, ela acompanha três amigos de oito anos, JR, Sprocket e Roo, treinando para virar exploradores da Frota Estelar. É distribuída de graça no YouTube, em episódios curtos.
A primeira temporada estreou em 8 de setembro de 2025, e os episódios novos chegam em 8 de setembro de 2026. A data não é coincidência: é o Dia de Star Trek, aniversário da estreia da série original.
Pode parecer detalhe menor perto de uma reunião com sete séries no palco, mas é estratégia clara. Franquia que quer durar mais sessenta anos precisa recrutar quem tem cinco.
Sessenta anos em números
Star Trek estreou na NBC em 8 de setembro de 1966. Foi cancelada na terceira temporada por baixa audiência, e virou fenômeno nas reprises, o que é provavelmente o caso mais famoso da história da televisão de uma série que só encontrou seu público depois de morrer.
De lá pra cá foram 11 séries de televisão, sendo Strange New Worlds a mais recente, além de treze filmes, incontáveis livros, quadrinhos e jogos. É uma das poucas propriedades de ficção científica que atravessou seis décadas sem interrupção definitiva.
E a franquia teve, sim, uma interrupção longa. Depois que Enterprise foi cancelada em 2005, Star Trek ficou 12 anos fora da televisão, até Discovery estrear em 2017. E o motivo daquele apagão é exatamente o assunto da próxima seção.
A série foi salva por cartas de fãs
Já que o assunto é aniversário, vale contar a história que explica por que essa franquia tem esse tipo de relação com o público.
Em 1967, a NBC pretendia cancelar Star Trek depois da segunda temporada. A audiência era fraca e o custo de produção era alto para os padrões da época. O que impediu isso foi uma campanha de cartas organizada por Bjo Trimble e John Trimble, um casal de fãs de ficção científica, que mobilizou a comunidade a inundar a emissora de correspondência. A NBC recuou e produziu uma terceira temporada.
A terceira temporada saiu, e aí sim a série foi cancelada, em 1969, com 79 episódios feitos. Deveria ter acabado ali. Só que as reprises vendidas para emissoras locais nos anos 70 encontraram um público que a exibição original nunca tinha alcançado, e o fenômeno explodiu justamente depois da morte da série.
É por isso que a primeira convenção de Star Trek aconteceu em 1972, três anos depois do cancelamento, e reuniu milhares de pessoas quando os organizadores esperavam algumas centenas. A cultura de convenção que sustenta o San Diego Comic-Con até hoje deve muito a esse momento. Quando o Hall H se levanta para o George Takei em 2026, está reagindo a uma corrente que os fãs começaram sozinhos há quase sessenta anos.
Treze filmes e dez anos de espera
A conta dos cinemas é outra parte da história que anda parada. Foram 13 filmes até aqui, começando por Star Trek: O Filme, de 1979, feito na esteira do sucesso de Guerra nas Estrelas.
O melhor deles, por consenso quase unânime, é A Ira de Khan, de 1982, que custou uma fração do primeiro e resolveu o problema apostando em conflito pessoal em vez de espetáculo visual. Depois vieram os filmes com o elenco da Nova Geração nos anos 90, e em 2009 a reinicialização dirigida por J.J. Abrams, que trouxe um público novo e rendeu duas continuações, encerrando em Sem Fronteiras, de 2016.
E desde 2016 não sai um filme. São dez anos de projetos anunciados, adiados, reescritos e engavetados. Numa comemoração de sessenta anos com sete séries representadas no palco, a ausência do cinema é o silêncio mais alto do painel. A televisão sustentou a franquia sozinha na última década.
Como assistir tudo isso no Brasil
Pra quem terminou de ler e bateu vontade de entrar nesse universo, a boa notícia é que ficou simples: o Paramount+ concentra praticamente todo o catálogo por aqui, das séries clássicas às atuais.
Aqui vai um conselho prático, porque essa é a pergunta que todo curioso faz e quase sempre recebe a resposta errada. Não comece pelo primeiro episódio de 1966. A série clássica é excelente, mas o ritmo de televisão dos anos 60 espanta quem não está acostumado, e a maior parte da gente desiste antes do quinto episódio.
Comece por Strange New Worlds. Ela é episódica, cada capítulo se fecha em si mesmo, tem produção moderna e é justamente uma homenagem à estrutura da série original. Se pegar gosto, aí vale voltar para A Nova Geração, e depois para Deep Space Nine, que é a mais densa e a preferida de boa parte dos fãs antigos. A série clássica fica melhor depois, quando você já entende as referências que todas as outras fazem a ela.
Um detalhe carinhoso pra quem cresceu no Brasil: por aqui a franquia chegou como Jornada nas Estrelas, e a tradução colou de tal forma que até hoje muita gente de uma geração inteira chama assim, mesmo com o título original tendo virado padrão nas plataformas.
Onde isso pode dar errado
A comemoração é justa, mas os números por trás dela contam uma história menos festiva.
Lower Decks encerrou. Starfleet Academy vai encerrar na segunda temporada, por audiência insuficiente. Strange New Worlds está na quarta temporada e vem sendo tratada como penúltima. A era iniciada por Alex Kurtzman em 2017, que chegou a manter várias séries simultâneas no ar, está claramente entrando na fase de encerramento.
E isso já aconteceu antes, com o mesmo roteiro. Nos anos 90, a franquia teve A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager quase se sobrepondo, mais filmes no cinema no mesmo período. O público se cansou, Enterprise pagou a conta e foi cancelada em 2005, e vieram doze anos de silêncio. Excesso de oferta desgastou a marca a ponto de a emissora desistir dela.
O risco agora é repetir a dose. Encerrar três séries num intervalo curto pode ser saudável, se for uma pausa planejada antes de uma reinvenção. Ou pode ser o começo de outro apagão, se ninguém tiver um plano do que vem depois. O painel de hoje foi longo em memória afetiva e curto em futuro, e essa proporção diz alguma coisa.
Do lado bom: uma franquia que consegue lotar o Hall H com atores de sete séries diferentes e receber ovação de pé para um ator de 89 anos não está com problema de amor do público. Está com problema de modelo de negócio, que é bem mais fácil de resolver.
Ficha técnica
- Painel: Star Trek Universe, no Hall H do San Diego Comic-Con
- Data: 25 de julho de 2026, das 12h30 às 13h45 no horário do Pacífico
- Apresentação: Scott Mantz
- Convidados históricos: George Takei, Michael Dorn, Robert Picardo, Cirroc Lofton, Doug Jones, Michelle Hurd, Jerry O’Connell, Dominic Keating, Karim Diané e Rod Roddenberry
- Elenco de Strange New Worlds presente: Anson Mount, Rebecca Romijn, Ethan Peck, Christina Chong, Celia Rose Gooding, Melissa Navia e Paul Wesley
- Produtores executivos: Akiva Goldsman, Henry Alonso Myers e Alex Kurtzman
- Strange New Worlds 4ª temporada: no Paramount+ desde 23 de julho de 2026, com 10 episódios semanais e final em 24 de setembro
- Starfleet Academy 2ª temporada: última da série, com 10 episódios, prevista para o começo de 2027
- Star Trek: Scouts 2ª temporada: no YouTube a partir de 8 de setembro de 2026
- Aniversário: 60 anos da estreia na NBC, em 8 de setembro de 1966
O que eu levo desse painel
Foi o painel mais bonito do Comic-Con até agora, e não por causa de anúncio nenhum. O anúncio de verdade foi pequeno, um ator entrando numa temporada que já foi filmada de uma série que já foi cancelada.
O que fez esse painel valer foi outra coisa. Foi George Takei aos 89 anos recebendo o Hall H de pé. Foi Michelle Hurd falando do pai e da Nichelle Nichols. Foi Rebecca Romijn transformando 13 minutos de tela de 1966 em personagem completa. Foi Jerry O’Connell lendo uma mensagem do Wil Wheaton. Sessenta anos de uma ideia bem simples, a de que dá pra imaginar um futuro em que a humanidade se acertou, e de que vale a pena continuar imaginando isso mesmo quando o presente não colabora.
Takei resumiu tudo em uma frase, segundo a cobertura ao vivo do Looper direto do Hall H:
“nossa força está em trabalharmos juntos”
A quarta temporada de Strange New Worlds está no ar no Paramount+, com episódios novos toda quinta, e o aniversário oficial de 60 anos cai em 8 de setembro de 2026.
E você, qual é a sua porta de entrada em Star Trek? Conta aqui nos comentários por qual série você começou.
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