O painel de Onslaught no San Diego Comic-Con era pra ser uma apresentação comum de filme de ação: mostra um trecho, o elenco fala umas coisas simpáticas, todo mundo vai embora. Só que Adam Wingard resolveu abrir o jogo e soltou a informação que mudou completamente o tamanho desse lançamento.
Onslaught se passa na mesma cidade e no mesmo universo de O Convidado, o filme de 2014 que virou objeto de culto absoluto. E não para aí: o diretor descreveu o novo filme como o fechamento de uma trilogia que começou em You’re Next e passou por O Convidado. Ou seja, existia uma trilogia acontecendo há 15 anos e ninguém tinha sido avisado. O filme estreia nos Estados Unidos em 4 de setembro de 2026, pela A24.
O que ele disse no palco
Wingard foi direto ao ponto. Segundo o The Playlist, que cobriu o painel, o diretor resumiu a conexão assim:
“acontece na mesma cidade”
E completou explicando a lógica: os programas secretos que aparecem em Onslaught são outras faces do mesmo projeto que produziu o personagem de Dan Stevens em O Convidado. Ele chamou o filme novo de sequência espiritual, e disse que enxerga os três títulos como uma trilogia completa.
Isso é uma revelação de peso, e por um motivo específico: Dan Stevens está no elenco de Onslaught. O ator que interpretou David em 2014 está de volta ao mesmo universo, doze anos depois. Wingard não confirmou se ele reprisa o papel, e essa ambiguidade é, obviamente, proposital.
Pra quem nunca viu O Convidado
Vale explicar por que essa notícia mexeu tanto com quem acompanha terror e ação. O Convidado saiu em 2014, custou 5 milhões de dólares e fez apenas 2,7 milhões de bilheteria mundial. Pela matemática do mercado, foi um fracasso comercial completo.
Pela matemática cultural, foi outra coisa. O filme conta a história de David, um soldado americano que aparece na casa da família Peterson dizendo ser amigo do filho morto no Afeganistão. Ele é educado, prestativo, encantador. E aí as pessoas ao redor começam a morrer. Dan Stevens, que até então era conhecido como o Matthew Crawley de Downton Abbey, entregou uma atuação de sorriso perfeito e olhar vazio que virou referência instantânea.
O filme foi crescendo em vídeo, em streaming, em recomendação de boca a boca, e hoje é citado como um dos melhores thrillers da década passada. Ganhou até uma restauração em 4K, apresentada em festival, tratamento que normalmente se reserva a clássico consagrado. É o tipo de obra que fracassou no cinema e venceu no tempo.
O elenco original ainda trazia Maika Monroe, que no ano seguinte estrelaria Corrente do Mal, e Lance Reddick, o eterno Charon de John Wick.
A trilogia que ninguém sabia que existia
Se você organizar os três filmes numa linha, a coisa faz um sentido retroativo bonito.
You’re Next, apresentado em festival em 2011 e lançado nos cinemas em 2013, é um filme de invasão domiciliar em que a vítima aparente se revela treinada para exatamente aquele tipo de situação. O Convidado, de 2014, inverte: o estranho simpático é o perigo, e a família é quem não tem preparo. Agora Onslaught junta as duas ideias: uma mãe com treinamento militar defendendo a família de soldados criados em laboratório.
Os três compartilham também a mesma dupla criativa. Simon Barrett escreveu os três roteiros, sempre em parceria com Wingard na história. E os três têm a mesma assinatura sonora e visual: sintetizador dos anos 80, violência seca, humor que aparece nos momentos mais desconfortáveis.
Chamar isso de trilogia é uma leitura generosa feita depois do fato, e não uma arquitetura planejada desde 2011. Mas funciona, porque a ligação temática já estava lá antes de alguém dar nome a ela.
A premissa do filme novo
Adria Arjona interpreta uma atiradora de elite do exército que vive num parque de trailers no deserto com a família. Perto dali existe uma instalação militar. De dentro dessa instalação escapa um esquadrão de super soldados geneticamente modificados, praticamente impossíveis de matar, e a noite dela vira uma questão de sobrevivência.
É uma premissa de uma linha só, e isso é elogio. Filme de ação funciona melhor quando você entende a situação em dez segundos e passa o resto do tempo tenso. Wingard voltando pra escala pequena depois de dois filmes de monstro gigante é a parte mais animadora dessa história toda.
Pra quem não conhece, Adria Arjona é a Bix Caleen de Andor, e também estrelou Hit Man ao lado de Glen Powell. Ela vem numa fase muito boa e nunca tinha carregado um filme de ação sozinha.
O trailer oficial, do canal da A24:
Tem um brasileiro fazendo o vilão
Essa é a parte que interessa muito por aqui e que quase nenhuma cobertura internacional está destacando: o vilão The Butcher é interpretado por Alex Pereira, o Poatan.
Sim, o mesmo. O ex-campeão do UFC na categoria meio-pesado, nascido em São Bernardo do Campo, que virou um dos maiores nomes brasileiros da história do esporte. Onslaught marca a estreia dele em longa-metragem, num papel de soldado geneticamente aprimorado. As filmagens aconteceram em Albuquerque, no Novo México, entre novembro de 2024 e janeiro de 2025.
Lutador virando ator não é novidade, e o histórico é irregular. Dwayne Johnson veio da luta livre e virou uma das maiores estrelas do planeta. Gina Carano, do MMA, teve um bom começo em Bem-Vindo ao Jogo, de Steven Soderbergh. Mas a lista de atletas que apareceram uma vez e sumiram é bem mais longa que a dos que ficaram.
O que joga a favor do Poatan é o tipo de papel. Ele não precisa carregar cena de emoção nem sustentar diálogo longo. Precisa ser uma presença física ameaçadora, e presença física ameaçadora é literalmente a profissão dele. Escalar um lutador com aquele porte para um super soldado criado em laboratório é uma decisão de elenco que resolve o problema antes de a câmera ligar. E colocar um brasileiro como vilão principal de um filme da A24 é uma porta que vale acompanhar.
Dois ícones dos anos 80 no elenco
O restante do elenco tem escolhas que parecem carta de amor a uma geração específica de cinema.
Michael Biehn está no filme. Pra quem não conhece o nome, o rosto você conhece: ele é o Kyle Reese de O Exterminador do Futuro, de 1984, e o Cabo Hicks de Aliens, de 1986. Ou seja, o cara que James Cameron usou duas vezes seguidas para representar o soldado competente cercado por algo que não deveria existir. Colocar ele num filme sobre super soldados militares é uma piada interna que o público certo vai captar na hora.
E tem Reginald VelJohnson, que é o Sargento Al Powell de Duro de Matar, o policial que fica no rádio com o John McClane a noite inteira. Ele também foi o pai de Family Matters, série que passou muito na TV brasileira.
Completam o time Rebecca Hall, que já trabalhou com Wingard nos dois filmes recentes de Godzilla e estrelou o excelente A Casa Sombria, Drew Starkey, de Outer Banks e do Queer de Luca Guadagnino, e Eric Wareheim, comediante de Tim and Eric que também apareceu em Master of None.
O trecho que passou no painel
A apresentação no Ballroom 20 mostrou um pedaço do começo do filme, e a escolha diz muito sobre o tom. A cena tem Adria Arjona atirando numa fileira de abóboras enquanto revive um flashback de combate, e termina com o título aparecendo na tela.
É uma abertura que estabelece três coisas de uma vez: a personagem sabe atirar, a personagem carrega trauma, e o filme não vai fingir que ela é uma vítima aleatória. Também é exatamente o mesmo truque estrutural de You’re Next, onde a protagonista tinha um passado que explicava a competência dela. Wingard gosta de plantar a resposta antes da pergunta.
Wingard estava acompanhado de boa parte do elenco no painel, com Arjona, Rebecca Hall, Drew Starkey e Dan Stevens presentes.
A fase dos monstros gigantes ficou pra trás
Pra entender por que esse projeto animou tanta gente, é preciso olhar o que Wingard andou fazendo. Depois de O Convidado, ele fez Blair Witch, em 2016, e Death Note, em 2017, para a Netflix. Nenhum dos dois deu certo, e o segundo foi rejeitado com raiva pelo público do mangá original.
Depois disso ele foi pro outro extremo e assumiu Godzilla vs Kong, em 2021, e Godzilla e Kong: O Novo Império, em 2024. Os dois deram dinheiro. Também são o oposto exato do que o tornou interessante: orçamento gigantesco, personagens digitais, decisões tomadas por comitê de estúdio.
Onslaught é a volta pro território onde ele funciona: escala reduzida, violência com consequência, roteiro do Barrett, distribuição da A24. É o mesmo movimento que vários diretores fazem depois de uma temporada em franquia grande, e costuma render os melhores filmes deles.
A A24 virou estúdio de ação
Tem uma mudança de rumo acontecendo na A24 que esse filme ajuda a explicar. O estúdio construiu a marca com cinema autoral de orçamento contido: Moonlight, Hereditário, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo. Filme de festival, prêmio, público específico.
Nos últimos anos isso mudou. Guerra Civil, de Alex Garland, lançado em 2024, virou a maior bilheteria da história da empresa e provou que dava pra fazer filme grande sem virar franquia. Vieram Warfare em 2025 e uma leva de projetos com escala maior. A A24 percebeu que existe um espaço abandonado no mercado: o filme de ação adulto, de orçamento médio, sem super-herói e sem número no título.
Esse espaço era o pão de cada dia de Hollywood nos anos 90 e praticamente sumiu. Os estúdios grandes migraram para o blockbuster de 200 milhões ou para o streaming, e o meio de campo ficou vazio. Onslaught cai exatamente ali, e a escolha de um diretor que já provou que sabe fazer violência criativa com pouco dinheiro é coerente com essa estratégia.
Isso também explica por que a A24 aceitou um filme com conexão a uma obra de outro estúdio. O Convidado foi lançado pela Picturehouse, não pela A24. A conexão aqui é temática e autoral, feita pelo diretor e pelo roteirista que detêm a ideia, não uma operação de propriedade intelectual entre empresas. É universo compartilhado de autor, não de contrato.
Soldado programado é um gênero antigo
A ideia central dos dois filmes, um programa militar secreto que transforma pessoas em armas e depois perde o controle delas, não é nova. E vale lembrar disso porque mostra em que tradição Wingard está mexendo.
Soldado Universal, de 1992, dirigido por Roland Emmerich com Jean-Claude Van Damme e Dolph Lundgren, pegou soldados mortos no Vietnã e os devolveu como máquinas de combate. Soldier, de 1998, com Kurt Russell, tratou de um combatente criado desde criança para a guerra e descartado quando surgiu um modelo melhor. Nos quadrinhos, o Soldado Invernal e o próprio Wolverine nasceram da mesma ideia.
O que O Convidado fez de diferente em 2014 foi tirar o soldado do campo de batalha e colocar na sala de jantar de uma família de classe média. O horror não vinha da explosão, vinha da educação impecável do sujeito no café da manhã. Se Onslaught mantém essa noção de que o produto do programa é assustador justamente por parecer gente comum, a trilogia fecha com uma tese coerente.
Se, por outro lado, os super soldados forem apenas alvos difíceis de derrubar, o filme vira ação competente e nada além. A diferença entre as duas versões cabe inteira no roteiro do Barrett, e é isso que eu vou estar olhando em setembro.
Onde isso pode dar errado
A preocupação principal tem nome, e o nome é Universo Sombrio. Em 2017, a Universal lançou A Múmia com Tom Cruise e anunciou, com direito a foto oficial do elenco, um universo compartilhado de monstros clássicos. O filme fracassou, o universo morreu no primeiro capítulo e a foto virou piada permanente na internet. A lição foi clara: conexão entre filmes só funciona quando cada filme se sustenta sozinho.
O risco aqui é o mesmo em versão menor. Se Onslaught gastar tempo demais construindo ponte com O Convidado, ele passa a depender de uma tarefa de casa que a maior parte do público não fez, já que estamos falando de um filme que fez menos de 3 milhões de dólares em 2014. Ninguém deveria precisar assistir a um fracasso de bilheteria de doze anos atrás pra entender um filme novo.
Existe um segundo risco, e ele é de expectativa. O Convidado é amado justamente pelo que tem de contido: um homem, uma casa, uma tensão que cresce devagar. Onslaught parte de um esquadrão de super soldados invadindo um parque de trailers. É bem mais barulhento. Quem for esperando o mesmo clima vai encontrar outro filme.
Do lado bom: a A24 não costuma comprar projeto genérico, a dupla Wingard e Barrett tem dois acertos juntos e o único filme deles que decepcionou foi justamente aquele em que trabalharam separados. A escala pequena é a melhor notícia do anúncio inteiro.
Ficha técnica
- Título: Onslaught
- Direção: Adam Wingard
- Roteiro: Simon Barrett, sobre história dele com Wingard
- Distribuição: A24
- Elenco: Adria Arjona, Dan Stevens, Rebecca Hall, Drew Starkey, Michael Biehn, Reginald VelJohnson, Eric Wareheim, Maurice Greene e Alex Pereira
- Filmagens: Albuquerque, Novo México, de novembro de 2024 a janeiro de 2025
- Conexão: mesma cidade e mesmo universo de O Convidado (2014)
- Trilogia informal: You’re Next, O Convidado e Onslaught
- Estreia nos Estados Unidos: 4 de setembro de 2026
- Estreia no Brasil: ainda sem data confirmada pela distribuição local
O que eu espero disso
Aposta pessoal: acho que esse vai ser o melhor filme do Wingard desde 2014, e acho que a revelação da conexão com O Convidado vai fazer mais gente assistir ao filme de 2014 do que assistir ao novo. Fenômeno de catálogo funciona assim, e quem nunca viu tem uma tarefa deliciosa pela frente.
Vale reforçar uma coisa: o filme foi vendido até agora como ação de sobrevivência com super soldados, e o público que comprar ingresso por causa disso não precisa de contexto nenhum. A conexão é um presente pra quem conhece, não uma exigência pra quem não conhece. Se Wingard mantiver essa disciplina, o universo compartilhado vira bônus em vez de dever de casa.
E vale acompanhar o Poatan. Se ele funcionar em tela, abre uma avenida.
Onslaught estreia nos cinemas americanos em 4 de setembro de 2026, e a data brasileira ainda não foi anunciada.
E você, já tinha visto O Convidado? Conta aqui nos comentários se a conexão com o filme de 2014 te deixou mais animado ou desconfiado.
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