A Sony soltou o trailer completo de Resident Evil em 23 de julho, poucas horas antes de o filme aparecer no San Diego Comic-Con, e a reação foi imediata: esse é, disparado, um dos melhores trailers de terror do ano. O filme é dirigido por Zach Cregger, chega aos cinemas em 18 de setembro de 2026 e não tem Leon Kennedy, não tem Claire Redfield, não tem Alice.
Em vez disso tem Austin Abrams como Bryan, um entregador de material médico que precisa fazer uma entrega no hospital geral de Raccoon City e escolhe a pior noite da história da cidade pra isso. É uma aposta arriscada, e depois de duas décadas de adaptações que não deram certo, arriscar talvez seja exatamente o que essa franquia precisava.
O cara errado na hora errada
A premissa é de uma simplicidade brutal. Bryan não é policial de elite, não é agente do governo, não é cientista. É um entregador que aceita um plantão noturno e vai parar no meio de um surto viral, correndo pra sobreviver enquanto a cidade desmorona em volta dele numa única noite.
O filme se passa nos dias atuais, durante uma versão alternativa dos eventos de Resident Evil 2, o jogo de 1998. Ou seja: o cenário e o desastre são reconhecíveis pra quem jogou, mas a perspectiva é de alguém que não tem treinamento nenhum. É a diferença entre acompanhar o bombeiro e acompanhar o morador do prédio.
Essa escolha resolve um problema antigo das adaptações do jogo. Todo filme anterior tentou entregar personagem conhecido, e todo filme anterior foi cobrado por não acertar o personagem conhecido. Sem Leon, sem Jill, sem Chris, não existe comparação direta a fazer. Cregger declarou que preferiu ser fiel à mitologia dos jogos em vez de canibalizar personagens e histórias que já existem, e a atriz Kali Reis descreveu o resultado como a versão dele da história de origem, não uma tradução literal.
O trailer oficial
O vídeo abaixo é do canal da Sony Pictures Entertainment:
O diretor está numa sequência rara
Pra quem não conhece, Zach Cregger passou anos como comediante. Ele veio do The Whitest Kids U’ Know, grupo de humor que fez série de esquetes nos Estados Unidos, e quase ninguém apostaria nele como diretor de terror.
Aí veio Barbárie, de 2022, feito com orçamento apertado, que virou um dos maiores fenômenos de boca a boca do gênero naquele ano justamente porque a estrutura do filme quebrava toda expectativa no meio do caminho. Depois veio Weapons, em 2025, que consolidou a fama. Dois filmes, dois acertos, e uma reputação construída em cima de uma habilidade específica: montar tensão e depois puxar o tapete.
Essa é exatamente a habilidade que Resident Evil precisa. O jogo original de 1996 funcionava porque administrava recursos escassos e sustos calculados, não porque tinha ação grandiosa. Contratar alguém que sabe segurar o público no desconforto por vinte minutos antes de soltar o monstro é a decisão mais alinhada com a fonte que esse projeto poderia ter tomado.
Quem mais está no elenco
Austin Abrams carrega o filme. Pra quem não conhece, ele é o Ethan de Euphoria, e antes disso foi o Ron Anderson em The Walking Dead. Ou seja, já circulou pelo apocalipse antes, ainda que em outro tipo de apocalipse.
Ao lado dele estão Kali Reis, que ficou conhecida do grande público como a parceira de Jodie Foster em True Detective: Terra Noturna, e Zach Cherry, o Dylan de Ruptura, que aqui deve funcionar como o alívio cômico que o roteiro claramente reservou pra alguém. Completa o time Paul Walter Hauser, ator de O Caso Richard Jewell e vencedor do Emmy por Black Bird, um dos melhores atores de personagem em atividade.
É um elenco de gente que ninguém chamaria de estrela de bilheteria, e isso é proposital. Filme de terror funciona melhor quando você não sabe quem vai sobreviver, e rosto conhecido demais entrega o final.
O saco de sangue que quase matou o ator
A história mais comentada do Comic-Con veio do painel Directors on Directing, onde Cregger descreveu a cena mais difícil da carreira dele. A equipe montou sacos de sangue do tamanho de um corpo humano, pesando cerca de 68 quilos cada, para serem despejados de guindastes de uma altura equivalente a seis andares, tudo capturado na câmera de verdade, sem efeito digital.
Um deles disparou antes da hora e passou muito perto de Austin Abrams. Em declaração reproduzida pelo The Playlist, o diretor comentou o episódio:
“foi impressionante o quanto ele chegou perto da morte”
Dito assim soa terrível, e é. Mas o detalhe que interessa aqui é técnico: esse filme está sendo feito com efeito prático, com coisas reais caindo em cima de gente real. Num gênero em que sangue digital virou padrão e quase sempre aparece como sangue digital na tela, apostar em prático é a decisão que separa terror que assusta de terror que impressiona.
A franquia que ganhou um bilhão sendo criticada
Pra medir o tamanho da encrenca que Cregger aceitou, vale olhar o histórico. A série de filmes dirigida e produzida por Paul W. S. Anderson, começando em 2002 e terminando em 2016, somou seis longas e passou de 1 bilhão de dólares de bilheteria acumulada. Virou a franquia de cinema baseada em videogame mais lucrativa da história.
E, ao mesmo tempo, foi detestada por boa parte do público dos jogos. Aqueles filmes giravam em torno de Alice, personagem criada pro cinema, vivida por Milla Jovovich, que não existe em jogo nenhum. Eram filmes de ação com zumbi, não filmes de terror de sobrevivência. Deu dinheiro, não deu respeito.
Esse é o paradoxo que assombra o projeto novo. A franquia já provou que vende mesmo desagradando o público principal. Fazer um filme que agrade quem jogou é, comercialmente, um risco maior do que repetir a fórmula que já funcionou.
As duas tentativas que fracassaram
Depois de Anderson, teve duas tentativas de acertar, e as duas erraram.
Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, de 2021, dirigido por Johannes Roberts, prometia exatamente o que os fãs pediam: fidelidade aos dois primeiros jogos, os personagens certos, a mansão, a delegacia. Custou 25 milhões de dólares e fez 42 milhões no mundo todo. Teve a pior estreia da franquia inteira nos Estados Unidos, e a crítica reclamou de um filme que tentou espremer dois jogos enormes em menos de duas horas e não coube.
A série da Netflix, de 2022, foi pior. Foi cancelada depois de uma temporada e terminou com 22% de aprovação do público no Rotten Tomatoes, um dos piores números já registrados para uma produção da plataforma. O problema ali era mais grave: a série mudou tanto a mitologia que virou outra história com nomes emprestados.
Duas lições saíram disso. A primeira é que fidelidade excessiva sufoca. A segunda é que infidelidade total irrita. O filme de Cregger está tentando o caminho do meio, com mundo fiel e história nova, que no papel é o único que ainda não foi testado.
Por que a PlayStation está produzindo
Um nome na lista de produtoras merece atenção: PlayStation Productions, ao lado de Constantin Film, Davis Films e Vertigo Entertainment.
A PlayStation Productions é o braço audiovisual da Sony criado justamente pra evitar o que aconteceu com Resident Evil nos anos 2000, quando estúdios licenciavam jogo e faziam o que bem entendiam. O currículo dela é bom: Uncharted em 2022, e principalmente The Last of Us, da HBO, que virou o padrão ouro de adaptação de videogame.
Ter gente que entende do material na sala de produção não garante filme bom, mas muda o tipo de conversa que acontece quando alguém sugere mudar algo essencial. E o orçamento de 80 milhões de dólares, cerca de 406 milhões de reais pela cotação de 25 de julho de 2026, com o dólar a R$ 5,08, é um número interessante: alto o bastante pra ter escala, baixo o bastante pra não exigir bilheteria de super-herói pra dar lucro.
As exibições de teste falam em Mad Max
Antes do trailer, o que circulava sobre esse filme vinha das exibições de teste, aquelas sessões fechadas em que o estúdio mede a reação do público antes do corte final. E o retorno foi forte.
A comparação que apareceu com mais frequência é com Mad Max: Estrada da Fúria, de 2015, pela ideia de um filme que engata e não solta mais. As reações descrevem uma obra construída quase inteira em cima de tensão, com composição visual cuidada e efeito prático fazendo o trabalho pesado, em vez de computação gráfica cobrindo tudo. Também apareceu de forma recorrente a observação de que o filme é bem mais cinematográfico que os anteriores da franquia.
Convém temperar o entusiasmo. Reação de exibição de teste vaza por interesse, quase sempre é positiva quando vaza, e o corte que o público viu pode não ser o que chega ao cinema. Mas quando o adjetivo que se repete é tensão, e não espetáculo, isso ao menos indica que o filme está mirando no alvo certo.
Noventa minutos é uma declaração
O dado mais revelador dessas sessões não é elogio nenhum, é a duração: 90 minutos.
Num ano em que blockbuster de duas horas e meia virou regra, entregar um filme de hora e meia é uma escolha estética explícita. Terror é o gênero que mais sofre com metragem inflada, porque medo é uma emoção que cansa. Depois de certo tempo, o corpo do espectador se acostuma com a tensão e para de responder. Os melhores filmes de susto da última década resolveram isso ficando curtos e apertados.
Noventa minutos também conversa com a estrutura da história. Uma noite, uma cidade, um personagem sem preparo. Não tem espaço pra subtrama, nem pra time de especialistas se apresentando um por um, nem pra explicar a origem do vírus em flashback. É o filme se comprometendo com o próprio conceito, e é a diferença entre o entregador correndo por Raccoon City e a versão que gastaria vinte minutos numa sala de reunião da Umbrella.
Os jogos estão no melhor momento da história
Tem um detalhe de contexto que quase ninguém está mencionando e que muda bastante a leitura desse lançamento: Resident Evil chega ao cinema com a franquia dos jogos vivendo a melhor fase de todos os tempos.
Em 27 de fevereiro de 2026, a Capcom lançou Resident Evil Requiem, o nono título principal, simultaneamente para PS5, Xbox Series, PC e Nintendo Switch 2. O jogo passou de 5 milhões de unidades vendidas e já tinha faturado quatro prêmios no Gamescom Awards 2025 antes mesmo de sair. As ações da Capcom subiram na esteira do lançamento.
No total, a franquia acumula mais de 174 milhões de unidades vendidas desde o primeiro jogo, de 1996. E essa recuperação não foi acidente. Resident Evil 7, de 2017, tomou a decisão corajosa de abandonar a ação de terceira pessoa e voltar ao terror claustrofóbico em primeira pessoa. Os remakes de Resident Evil 2, em 2019, e de Resident Evil 4, em 2023, mostraram como modernizar sem trair. A Capcom passou dez anos consertando a própria casa.
Isso importa para o filme por dois motivos. O primeiro é comercial: o público que compra jogo de Resident Evil hoje é maior e mais engajado do que era em 2021, quando o reboot anterior fracassou. O segundo é de referência: existe agora um padrão recente e bem sucedido de como esse universo funciona quando é levado a sério. Cregger não precisa reinventar o tom, ele tem uma década de material mostrando qual tom funciona.
Onde isso pode dar errado
O risco tem nome e é David Gordon Green. Em 2018, Green era um diretor respeitado de cinema independente que assumiu Halloween e acertou em cheio no primeiro filme. Nos dois seguintes, a coisa desandou, e Halloween Ends, de 2022, terminou como um dos encerramentos mais rejeitados da história do terror. O padrão ali é conhecido: um diretor autoral entra numa franquia grande, o primeiro filme carrega a voz dele, e a máquina vai apagando essa voz aos poucos.
Cregger está entrando numa franquia com décadas de mitologia, produtora de videogame, estúdio grande e planos evidentes de continuação. Tudo isso empurra na direção de padronizar. O que fez Barbárie funcionar foi a liberdade de quebrar a estrutura sem pedir licença, e essa é a primeira coisa que costuma sumir num projeto desse porte.
Existe um segundo risco, e ele é o protagonista. Apostar num personagem inédito no meio de uma cidade que o público conhece de cor significa que o filme precisa fazer você se importar com o Bryan em poucos minutos, sem apoio de nostalgia. Se isso não pegar, sobra uma noite de fuga bonita e vazia.
Do lado bom: o trailer é excelente, a resposta das exibições de teste foi positiva, o diretor está em ótima fase e a franquia está tão desgastada nas telas que qualquer acerto vai parecer maior do que é. É o cenário ideal pra surpreender.
Ficha técnica
- Título: Resident Evil
- Direção: Zach Cregger
- Roteiro: Zach Cregger e Shay Hatten
- Distribuição: Columbia Pictures, pela Sony Pictures Releasing
- Produção: Constantin Film, Davis Films, Vertigo Entertainment e PlayStation Productions
- Elenco: Austin Abrams, Kali Reis, Zach Cherry, Paul Walter Hauser e Johnno Wilson
- Orçamento: 80 milhões de dólares, cerca de 406 milhões de reais
- Ambientação: Raccoon City nos dias atuais, numa versão alternativa dos eventos de Resident Evil 2
- Primeiro teaser: 30 de abril de 2026
- Trailer completo: 23 de julho de 2026
- Estreia: 18 de setembro de 2026
Minha aposta
Acho que esse é o filme de videogame com maior chance de dar certo desde The Last of Us, e por um motivo bem específico: é o primeiro que contrata um diretor pelo que ele sabe fazer, em vez de contratar alguém pra executar uma encomenda. Cregger não foi escolhido porque é barato ou porque estava disponível. Foi escolhido porque faz terror bom.
O que me anima de verdade é a escala pequena da premissa. Uma noite, uma cidade, um cara sem preparo nenhum. É a mesma lógica do jogo de 1998, em que você passava metade do tempo com pouca munição decidindo se valia a pena abrir aquela porta. Filme de Resident Evil nunca teve medo suficiente, sempre teve ação demais. Esse parece disposto a inverter a conta.
Resident Evil estreia nos cinemas em 18 de setembro de 2026.
E você, prefere adaptação que segue o jogo à risca ou que inventa história nova no mesmo universo? Conta aqui nos comentários.
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